O Beijo do Adeus

            É manhã de primavera. As flores enfeitam os campos e cobrem o ar com seu perfume. Os animais pastam e passeiam entre os ramos macios do lugar. O barulho da cachoeira soa como um canto. As montanhas encobrem um horizonte de sonhos.
            Na suavidade de seus quinze anos, Tina levanta-se da cama antes do nascer do sol e sai ao portão. Ela nem se importa com orvalho caído sobre a grama do quintal, pois está sendo movida pelo amor.
            Aldo descobre-se, de repente, na curva da estrada. Ele vem sorrindo e trazendo algumas flores que foram colhidas no campo para serem oferecidas à sua amada.
            Tina o espera com um sorriso nos lábios e um brilho de amor no olhar. O seu coração bate de alegria quando seus olhos o veem. 
            E o perfume das flores cobre de sonhos um beijo de quem tem a certeza de que o amor habita em seus corações.
            Mas Mário, o detetive, vem vindo vagarosamente pela estrada, onde quase nunca passa alguém. A lei desse lugar impede que um maior beije uma menor. Mário, porém, pode até se calar ante tão bela cena de amor. Mas o egoísmo que há em si o impede de ser generoso com o casal. Aldo, então, é levado pelo detetive por essa estrada, a caminho de um destino cruel.
            Tina não consegue controlar o pranto. E seus gritos desesperados acordam seus pais. Sr. Abner lhe bate com o cinto ao saber o que aconteceu. E dona Almira tenta defende-la. Mas é contida pelo pai, que expulsa a filha de casa. Tina segue, então, por aquela estrada, agora a tristeza lhe faz companhia.
            O céu vai se escurecendo aos poucos, e logo a chuva se mistura com as flores do lugar. Aldo segue pela estrada, aprisionado pelo detetive. As lembranças de seus pais vêm à sua mente, fazendo-o lembrar quando eles ainda eram vivos. Quando ficou órfão, Aldo pensou que a tristeza seria uma constante em sua vida e mudou-se para distante, onde se encontrou com Tina, o seu grande e único amor. Mas foi apenas um mês de sonhos e teve a felicidade cortada por causa de um único beijo. Agora, sob a chuva, ele tem um destino incerto, e a felicidade está muito distante de sua vida. Que armas um jovem de vinte e dois anos tem para lutar contra a lei num lugar onde beijar é crime? Mas ele promete a si mesmo que não vai se culpar por esse beijo.
            _Eu morrerei feliz se for condenado ao afogamento, pois estarei morrendo por amor!
            Chorando inconsolavelmente, Tina segue por uma trilha entre o mato e dirige-se rumo à casa de Ernesto, o advogado. Ernesto fica assustado ao vê-la toda molhada e logo quer saber o que houve.
            Ao saber a história, Ernesto fica quase sem esperança de poder ajudá-los, pois ele sabe que esse crime é imperdoável pela lei do lugar.
            _Certamente Aldo será condenado ao afogamento, pois nenhum juiz concordará com sua liberdade!
            Mas, mesmo sabendo que suas chances são mínimas, Ernesto se põe à disposição do casal. Aliás, segundo Ernesto, eles só tem duas chances, e uma delas é alcançar Mário e Aldo antes de eles chegarem à delegacia e convencer o detetive a deixar o assunto de lado e liberar o rapaz da prisão.    
            Na delegacia, o xerife Agenor acha estranho ao ver o detetive com um prisioneiro sob o temporal. Mas não dá nenhuma chance a Aldo, que é logo mandado para a cela. O xerife, apesar de ter um cargo cujo poder é limitado, é quem manda na região.
            Tina e Ernesto não conseguem alcança-los, mas vão até a delegacia para ver como ficará a situação de Aldo. O xerife permite a Tina que vá aonde o rapaz está para vê-lo. Aldo e Tina se abraçam entre as grades. Depois conversam e veem que a felicidade está bem distante de suas vidas. Ernesto e Agenor conversam sobre a condição de Aldo, e Ernesto descobre que a situação do rapaz é bem pior do que ele imaginava.
            A chuva cessa, mas o temporal está apenas começado na vida de Tina. Ela foi expulsa de casa, perdeu a grande chance de se sentir amada e agora tem um desejo, vingança. O seu delicado rosto de menina apresenta, então, uma expressão de ódio. O seu desejo é se vingar do detetive, mas isso não lhe trará a felicidade de volta. O melhor, então, é dar tempo ao tempo. Mas o que Tina quer mesmo é ser condenada também e, enfim, poder morrer ao lado de seu amor. Ela, então, promete a si própria que, se Aldo for condenado ao afogamento, ela se afogará com ele. 
            Ernesto, o advogado, passa o tempo todo lutando para encontrar alguma coisa que possa salvar esse jovem. Ele sabe que a opinião pública é uma força capaz de ajudá-lo em seus planos. Mas ele sabe também que, mesmo com o povo a seu lado, será muito difícil revogar a situação de Aldo. Mas ele tem que lutar por essa causa, tem que ajudar essa garota apaixonada a reencontrar o seu amor, tirando-o das garras terríveis da prisão e impedindo a sua morte. Luta, essa talvez não seja a única palavra capaz de ajudá-lo nessa batalha, ele precisará também de muita sorte, pois Aldo foi o primeiro a ser preso por tal crime na região, e o xerife, então, fará de tudo para que ele seja condenado.
            Dona Almira chora muito, não consegue se controlar por ter perdido a filha, que está morando sozinha na casa de Aldo.
            Sr. Abner se corrói de arrependimento e chora de angústia por ter maltratado a filha:
            _Ela não merecia isso, e eu não a ajudei quando ela mais precisou de mim!
            Um dia, ele não resiste e vai procurá-la. Mas ela não quer mais voltar para casa, pois não quer relembrar o momento triste em que viveu e ainda vive. Tina quer esquecer que foi maltratada pelo pai por causa de apenas um beijo, um beijo que tem um significado bem maior que apenas um beijo para ela, pois esse beijo significa o amor. E o amor é o único significado que alguém pode encontrar que realmente signifique tudo.
            Mário se sente realizado, pois conseguiu aprisionar alguém por causa de um beijo. Ele tem muita inveja de Aldo, pois, com vinte e nove anos, ele nunca conseguiu, por ser egoísta, encontrar um amor verdadeiro. Portanto, se ele não conseguiu ser feliz com alguém, não entende esse sentimento com relação aos outros.
            O xerife quer provar a todos que tem grande poder junto à lei, por isso quer que Aldo seja condenado ao afogamento. Então, sim, agora com quarenta e seis anos, ele pode provar a todos o poder de liderança que ele tem na região de Pouso do Adeus.
            Assim, entre inveja e egoísmo, a situação de Aldo vai se complicando cada vez mais.
            Na prisão, Aldo viaja em sonhos apaixonados. Os seus pensamentos levam-no à sua amada, que não pode estar a seu lado:
            _Meu amor, eu jamais me arrependerei de amá-la, pois o amor que há entre mim e você é a certeza da vida, mesmo separados nós nos amamos. O abismo que há entre nós é apenas uma razão para lutarmos pelo nosso amor, pois lutar por amor é lutar por vida, por isso a certeza de que a amo habita em meu coração. Você é tudo o que sempre quis e procurei. Por você eu vou morrer e vou morrer feliz, pois morrerei por amor.
            A morte para ele será, então, uma prova do quanto é grande o seu amor.
            No outro dia, Mário monta em seu cavalo e segue rumo à casa de Aldo, onde Tina se encontra. Ao chegar, ele desmonta e entra sem ao menos pedir licença. Tina se assusta ao vê-lo, pois ela não estava imaginando que ele fosse ali. Ao ver qual é a intenção dele _ E sua intenção é cretina _, ela se assusta ainda mais.
            Lá fora, Sr. Abner vem chegando e se apressa quando ouve os gritos da filha. Quando ele entra e vê qual é a intenção de Mário, ele retira a faca da cintura e ataca. Mário tenta se defender da fúria do pai da garota, mas acaba sendo atingido e jogado através da janela. Ele se arrasta, então, até o cavalo ainda com vida, monta e segue vegetando pela estrada. Mas, enquanto Sr. Abner consola a filha, Mário não resiste à dor e acaba morrendo.
            Assim como a prisão de Aldo, a notícia da morte de Mário anda por todos os cantos do lugar. O povo não entende a causa de sua morte, pois ninguém acredita na hipótese de ter ocorrido um suicídio.
            O advogado faz discurso público na tentativa de conseguir o apoio do povo, pois, segundo ele, somente o povo poderá reverter à situação de Aldo.
            Mas, enquanto Ernesto luta para reverter à situação de Aldo, Tina se confessa culpada pela morte de Mário, acreditando que Aldo será mesmo condenado ao afogamento. A princípio, o xerife não acredita na versão da garota, mas depois aceita a confissão, pois não tem competência para procurar o verdadeiro culpado pelo crime e precisará de alguém preso para se despistar perante o povo, que, segundo ele, certamente exigirá uma solução para o caso.
            Sr. Abner procura o xerife para lhe dizer que Tina não teve culpa alguma pela morte de Mário, mas ele sim é o culpado por esse crime. O xerife, porém, não pode voltar atrás na sua decisão _ embora ele acredite mais na versão de Sr. Abner _, pois ele tem medo de que haja uma rebelião por parte do povo. Enfim, cabe a ele o controle do povo da região.
            Ao ver que não pode ajudar a filha, que provavelmente será condenada ao afogamento, Sr. Abner comete suicídio.
            Dona Almira, ao ver que o marido está morto e a filha provavelmente morrerá, suicida-se também.
            O xerife não dá muita importância aos casos, pois ele está muito preocupado é consigo mesmo. O julgamento de Aldo e Tina, então, é marcado para quinze dias após a morte de dona Almira.
            Passa-se, então, quinze dias. Na manhã do dia do julgamento, Aldo olha pela janelinha da cela e vê uma multidão que se descobre no morro. Nem a forte chuva os impede de avançar. Liderados por Ernesto, eles gritam os nomes de Aldo e Tina, todos querem vê-los livres.
            Mas chega a hora do julgamento, e nem mesmo a forte pressão popular consegue impedir que eles sejam condenados ao afogamento. Ernesto, então, exige que eles sejam afogados juntos.
            Lá fora, todos estão impacientes e continuam a exigir que eles sejam liberados. Mas os guardas armados impedem que haja uma maior ração contra a lei.
            Já condenados, Aldo e Tina são levados para a cela de afogamentos, onde os deixam trancados e abrem as torneiras.
            Ernesto está lá fora, ao lado do povo, que tenta de todas as formas evitar a morte do casal.
            Lá dentro, Aldo e Tina se abraçam para esperar o último instante em que poderão se ver. As lágrimas caem dos seus olhos, e eles não acreditam que isso seja real. Como é possível alguém morrer por amor?
            De repente, Ernesto tenta invadir a prisão para salvar o casal da morte. Mas os guardas atiram nele para servir de exemplo àqueles que quiserem segui-lo. O xerife tenta convencer o povo a mudar de lado em um discurso hipócrita, enquanto Ernesto tenta reagir contra a morte.
            À medida que a água vai subindo, as lembranças do passado vão ficando mais intensas nos pensamentos de Aldo e Tina. Vem, então, a lembrança do primeiro encontro quando seus olhares se cruzaram, o sorriso e, enfim, o primeiro momento mágico do amor. Então, a tristeza que Aldo sentia pela perda dos pais se amenizaria um pouco por ele ter se encontrado com Tina, que veio a preencher um pouco o vazio que havia em seu coração. Mas agora o amor deles está por uma questão de minutos, pois a cada instante que passa a água sobe um pouco mais.
            Lá fora, quando Ernesto acaba de morrer, o povo ataca os guardas, liderados por Tony, um rapaz que se encontrava entre a multidão. Muitos deles são atingidos por tiros e vários morrem na batalha.
            Na cela de afogamentos, Aldo e Tina se abraçam mais forte e se beijam quando veem que na há mais como sobreviver, pois a água já se aproxima do teto.
            A batalha continua lá fora. Tony enforca o xerife até a morte, e o povo continua avançando até vencer os guardas e segue rumo à cela de afogamentos. Tony abre a porta com a chave que retirou da cintura do xerife e fecha as torneiras. A água escorre toda, mas Aldo e Tina já estão mortos. Eles estão abraçados e persistem se beijando, nem mesmo a morte conseguiu separa-los.
            A chuva continua caindo. O povo carrega Aldo e Tina como heróis, depois os enterram juntos, pois ninguém conseguiu separar um abraço de amor verdadeiro nem cortar ao meio um beijo tão ardente, que se tornou frio pela morte. O choro de quem foi ao cemitério é um lamento em vão. Mas Tony pede a todos os casais que se beijem, pois, graças a Aldo e Tina, agora é permitido.
 
Fim.
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